Escuta Ativa numa Relação: Como Fazer na Prática
A escuta ativa foi tão mal explicada durante tanto tempo que hoje quase toda a gente a associa a uma voz ligeiramente robótica a dizer “o que eu estou a ouvir é que…”. Essa versão é papaguear, e o parceiro percebe logo, porque devolve as palavras sem devolver qualquer compreensão.
Ouvir a sério está mais perto de adivinhar bem em voz alta. Pega no que o outro disse, acrescenta o que acha que aquilo significava e devolve para ser corrigido. Às vezes engana-se, e ser corrigido é precisamente o objetivo — mostra que estava mesmo a tentar chegar ao que o outro queria dizer, em vez de esperar por uma brecha para apresentar a sua versão.
O que é mesmo a escuta ativa#
A escuta ativa é o ato de mostrar ao seu parceiro o que percebeu até ali, para que ele possa corrigir antes de você responder. Tem três peças em movimento: o conteúdo do que aconteceu, o sentimento por baixo, e uma verificação de que percebeu bem. Se falhar o sentimento, soa a call center. Se falhar a verificação, está apenas a afirmar que percebeu. Tudo isto é curto — normalmente uma ou duas frases — e o objetivo não é fazer o outro sentir-se ouvido como técnica, é garantir que o ouviu mesmo antes de responder.
Refletir e papaguear#
| O que a outra pessoa disse | Papaguear | Refletir |
|---|---|---|
| Tive um dia horrível, o prazo mudou outra vez | Então o prazo mudou outra vez | Então mudou outra vez e é você que leva com isso. Deve ser esgotante — é o trabalho ou a forma como está sempre a mudar? |
| Disse que ia ligar e não ligou | Estou a ouvir que não liguei | Ficou com aquilo na cabeça a noite toda e depois não veio nada. Isso deve dar a sensação de ser um detalhe secundário. É por aí? |
| Não quero ir a casa dos seus pais este ano | Não quer ir a casa dos meus pais | Alguma coisa do ano passado ainda está presa aí. É a viagem toda ou uma parte em concreto? |
| Estou bem | Está bem | Diz que está bem mas soa apagado. Posso estar a ler mal — quer falar ou quer sossego? |
| Nunca tenho tempo para mim | Nunca tem tempo para si | O seu dia inteiro é os outros, do princípio ao fim. É mais tempo que precisa, ou tempo que ninguém possa interromper? |
Papaguear usa as palavras do outro. Refletir usa as suas, e é isso que prova que a coisa passou pela sua cabeça.
Como fazer isto numa conversa real#
Não precisa de uma voz especial nem de um cenário especial. Precisa de abrandar a primeira resposta uns dez segundos.
- Ponha o telefone virado para baixo e vire-se para a outra pessoa. Metade da atenção lê-se como nenhuma.
- Deixe terminar, incluindo a pausa a meio em que o outro está a decidir se diz a coisa verdadeira.
- Repita a situação por palavras suas, de forma breve.
- Acrescente o seu melhor palpite sobre o sentimento e marque-o como palpite: “é isso?”, “estou perto?”.
- Se o corrigirem, aceite a correção sem discutir.
- Só depois pergunte se querem a sua opinião ou se só queriam ser ouvidos.
Os hábitos que matam a escuta em silêncio#
A maior parte das falhas de escuta não é falta de educação. São instintos prestáveis a chegar cedo demais.
- Resolver antes de a outra pessoa acabar de descrever.
- Comparar — “também me aconteceu” — que muda o foco numa frase.
- Defender-se, quando a história por acaso o envolve.
- Tranquilizar depressa demais: “vai correr tudo bem” fecha o assunto, não a preocupação.
- Fazer perguntas que são discussões disfarçadas de pergunta.
- Ouvir à procura da parte de que discorda, em vez da parte que o outro veio dizer.
Se não tem a certeza do que querem, pergunte diretamente: quer ajuda com isto ou quer que eu apenas ouça?
Quando ouvir não é a ferramenta certa#
Ouvir bem não é o mesmo que concordar, e não é devido em todas as situações. Se o seu parceiro está a gritar, a insultar ou a usar a conversa para o desgastar, o passo certo é terminar, e não refletir com mais empenho. Refletir uma voz levantada tende a premiá-la. Também não é a ferramenta quando é mesmo preciso decidir e um de vocês continua a reabrir a discussão em vez de escolher. E se é sempre você quem ouve e nunca é ouvido, o próprio desequilíbrio é o assunto que vale a pena levantar — com delicadeza, mas com clareza.
Perguntas frequentes
A escuta ativa significa que tenho de concordar com o meu parceiro?
Não, e confundir as duas coisas é a razão por que tanta gente resiste. Refletir diz “percebo o que quer dizer”, não “tem razão”. Na prática, mostrar que percebeu primeiro torna o desacordo mais fácil, porque o outro deixa de estar a tentar provar que foi ouvido. Faça a reflexão, confirme, e só depois diga com clareza que vê a coisa de outra maneira, e porquê.
O que digo quando não faço ideia do que a outra pessoa está a sentir?
Diga exatamente isso, em voz alta. “Percebo que isto é importante e não quero adivinhar mal — qual é a coisa principal que está a sentir?” Admitir que não consegue ler é muito melhor recebido do que um palpite errado dito com confiança, e devolve a nomeação a quem realmente sabe. O vocabulário também ajuda: magoado, preocupado, envergonhado, desvalorizado, sobrecarregado e sozinho cobrem muito terreno.
O meu parceiro diz que a minha escuta soa a falsa. O que estou a fazer mal?
Normalmente uma de duas coisas. Ou está a usar as palavras exatas do outro, o que soa a guião, ou está a refletir sem qualquer reação — sem expressão, sem calor, só o resumo. Ponha por palavras suas, arrisque errar um pouco em vez de ficar em cima do muro, e deixe a cara fazer alguma coisa. Ser corrigido é um bom resultado, não um erro.
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