Limites na Relação: Como Definir Um Sem Dar Origem a Discussão
Grande parte do que se chama definir limites é na verdade impor regras, e é por isso que acaba tantas vezes em discussão. “Não te permito que fales assim comigo” é uma ordem dada a um adulto, e os adultos tendem a responder a ordens com resistência, tenham elas ou não razão.
Um limite é uma afirmação sobre o seu próprio comportamento. Diz o que você vai fazer se algo acontecer, e não precisa do acordo de ninguém para ser válido — que é exatamente o que o torna calmo. Não está a pedir autorização nem a negociar condições. Está a descrever, com antecedência e sem exaltação, o aspeto que o seu lado vai ter da próxima vez.
Um limite descreve o que você vai fazer#
O teste é perceber se a frase pode ser cumprida só por si. “Pára de gritar, por favor” depende inteiramente da outra pessoa e entrega-lhe o poder de aceitar ou recusar. “Se os gritos começarem, saio da sala e retomamos mais tarde” não depende de mais ninguém e, como não é um pedido, também não pode ser recusado. As duas frases falam do mesmo problema. Só a segunda é um limite. É também por isso que os limites funcionam com pessoas pouco cooperantes: não precisam de adesão, só de cumprimento. O que lhe custam é o esforço de fazer mesmo o que disse, todas as vezes, incluindo quando dá jeito nenhum e o momento parece de fronteira.
Se a sua frase tiver as palavras “tens de”, reescreva-a. É uma regra, e vai ser discutida.
Limite, pedido, ultimato, castigo#
| Tipo | Como soa | O que faz |
|---|---|---|
| Pedido | Podes mandar mensagem se te atrasares? | Pede uma mudança. É razoável, mas depende de o outro aceitar. |
| Limite | Se às nove ainda não souber de ti, janto e vou dormir em vez de esperar acordado. | Descreve a sua própria ação. Não precisa de acordo, só de consistência. |
| Ultimato | Se te voltares a atrasar, acabou. | Põe a relação inteira em cima de um episódio. Às vezes é preciso, raramente é proporcional. |
| Castigo | Muito bem. Vê lá se gostas de ser ignorado uma semana. | Quer magoar em vez de proteger. Faz subir o tom e não ensina nada. |
| Ameaça que não vai cumprir | Da próxima vou-me embora, estou a falar a sério. | Pior do que nada. Ensina o outro a não levar a sério os limites verdadeiros. |
Um ultimato é um limite que tem a relação inteira como consequência, por isso guarde-o para as poucas coisas que o justificam mesmo.
As palavras exatas#
Diga-o uma vez, com calma, com antecedência sempre que possível, e curto. Explicações longas convidam à negociação.
- “Não vou continuar a falar disto esta noite. Retomo no sábado, depois de dormir.”
- “Se a conversa chegar aos insultos, paro e saio da sala. Volto daqui a vinte minutos.”
- “Não me sinto à vontade a falar das nossas contas com o teu irmão. Se o assunto surgir no domingo, mudo de conversa.”
- “Não volto a emprestar dinheiro. Prefiro ficar de fora disso a ter isso entre nós.”
- “Preciso de uma noite por semana só para mim. As quintas são minhas a partir das sete, e deixo tudo tratado antes disso.”
- “Se tiveres bebido, não entro no carro. Chamo um táxi para os dois.”
Sem parágrafo de justificação no fim. As razões são boas se forem pedidas; oferecer três de uma vez sinaliza que o limite é negociável.
Como o manter depois de o ter dito#
Definir é a parte fácil. As primeiras duas ou três vezes em que for testado é que decidem se ele se torna real.
- Diga-o uma vez, num momento neutro, e não a meio do episódio, se conseguir evitá-lo.
- Faça exatamente o que disse logo à primeira vez que acontecer, mesmo que essa ocasião seja mais leve do que a que tinha em mente.
- Faça-o sem comentários. Sair da sala em silêncio é um limite; sair com um discurso é uma cena.
- Volte depois, com calor, e termine a conversa como prometeu. É o regresso que prova que não era um castigo.
- Conte com uma reação nas primeiras vezes — mágoa, zanga, uma acusação de frieza — e não use essa reação como prova de que estava errado.
- Ajuste o limite mais tarde se perceber que ficou mal desenhado, mas ajuste-o num momento calmo e nunca a meio do teste.
Quando os limites não são a ferramenta certa#
Os limites funcionam com alguém que é globalmente decente e às vezes descuidado. São muito mais fracos contra quem os testa de propósito, porque cada um passa a ser mais uma coisa para desgastar, e acaba a passar a vida a fazer cumprir condições em vez de a viver. Se der por si com doze limites e exausto de todos eles, a pergunta já não é como formular o décimo terceiro. É se esta é uma relação onde pode ser quem é sem trabalho defensivo constante. E onde há medo — onde um limite seria castigado, onde é vigiado, isolado, controlado no dinheiro ou magoado fisicamente —, defini-lo pode aumentar o risco em vez de o reduzir. Isso não é um problema de limites. Contacte um serviço de apoio a vítimas de violência doméstica no seu país e planeie com alguém com formação, a partir de um aparelho que o outro não possa ver.
Perguntas frequentes
Um limite não é apenas uma forma educada de controlar o outro?
Não, e a diferença é testável. O controlo diz à outra pessoa o que ela pode fazer; um limite diz-lhe o que você vai fazer em resposta. “Não podes sair com eles” é controlo. “Não vou ficar acordado à espera, e prefiro saber com antecedência” é um limite. Se a sua frase retira a escolha ao outro, escreveu uma regra. Se deixa a escolha dele intacta e apenas descreve a sua, escreveu um limite, seja qual for o nome que ele lhe der no momento.
E se o meu companheiro reagir mal sempre que defino um?
Alguma reação é normal no início, sobretudo se historicamente absorveu tudo, porque um limite novo muda mesmo o acordo entre os dois. O que interessa é a tendência ao longo de algumas semanas. Uma reação que suaviza à medida que o limite se mostra estável é adaptação. Uma reação que sobe de tom, ou que se transforma em castigá-lo por ter limites, é informação sobre a relação e não sobre a sua forma de dizer as coisas.
Sou obrigado a explicar porquê?
Uma vez, de forma breve, se quiser e se ajudar o outro a perceber. Não tem de construir um processo, e as justificações longas costumam sair ao contrário porque abrem o limite ao contra-argumento. Uma razão simples chega: “Depois das onze fico exaltado e digo coisas de que me arrependo.” Se a razão for repetidamente contestada em vez de ouvida, o problema não é a sua explicação ter sido curta demais.
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